O mundo está todo conectado e as informações pululam em qualquer canto desta aldeia globalizada e, entretanto, tem gente que ainda não sabe o que esperar de um show do Guns N'Roses. Inacreditável mas, no último sábado, no chiqueirão, tinha gente reclamando após uma mísera horinha de atraso. Eu esperava pelo menos umas duas. Cheguei a ficar decepcionado quando a banda subiu ao palco pouco depois das 12h30 do domingo.
Com tanta informação, existem também as informações erradas. E todas as tentativas de se acertar o horário de início dos shows foram em vão. O ingresso marcava 21h30, mas teríamos duas bandas brasileiras (Rock Rocket e Forgotten Boys) e ainda o Sebastian Bach antes da atração principal. Fiz uns cálculos na base do chutômetro, cheguei ao estádio depois das 22h e o ex-vocal do Skid Row já estava na metade do seu show. Ouvi "18 & Life" do lado de fora. Em "In a Darkened Room" eu já estava lá dentro. Mas importante é que, na baladaça "I Remember You", eu já estava bem localizado e feliz da vida.
Tão feliz quanto Sebastian Bach, que revelou emocionado em seu Flickr que foi o show mais legal de sua carreira. O homem estava empolgado mesmo, abraçou a bandeira do Brasil e alternou sucessos da ex-banda com músicas da carreira solo que ninguém conhecia. Bach está em forma, muito mais magro e saudável do que da última vez que o vi em um daqueles programas de mansões na MTV. Pena que o telão miserável mostrava imagens fixas de uma única câmera posicionada muito atrás de mim. Mas não dá pra reclamar, foi uma abertura perfeita para aquela vibe hard rocker anos 80/90 da noite. We remember you, Tião.
Em compensação, não vi Rock Rocket nem Forgotten Boys, mas soube que um cara da primeira banda se referiu à plateia como "farofada". Não sei qual foi a real intenção, mas... aham Claudia... senta lá..
Com "apenas" uma hora e meia de atraso, o Guns subiu ao palco e logo na primeira música, "Chinese Democracy", Axl foi Axl. Parou o show e xingou um idiota que havia jogado uma garrafa d'água no palco. Ameaçou cancelar tudo, mas logo retomou a música e tocou o show adiante. "Welcome to the Jungle" trouxe o caos ao chiqueirão, gente pulando como se não houvesse amanhã. Aqui cabe um comentário pertinente: não fui ao Coldplay, mas ouvi relatos confiáveis da falta de potência da banda no Morumbi. Seria o caso de trocar, não? Guns merece Morumbi, sempre. Coldplay, no máximo um Via Funchal.
Cover de si mesmo? Antes fosse. Em quase 3 horas de show, os únicos momentos de tédio foram as músicas do último disco, o mitológico "Chinese Democracy". Se Axl resolvesse assumir o cover e tocar só os hits de outrora, eu não sei se eu e meus colegas de mesma idade iríamos aguentar o tranco. Porque cada faixa do "Appetite" é de destruir o cidadão com pouco preparo físico. E aí dane-se que não tem Slash, dane-se que a voz do Axl nem sempre chegue lá (apesar dos efeitos, dos backings, do microfone estourado no talo), dane-se tudo. E fuck you Axl Rose, como ele ensinou a gente a gritar, porque você se tornou mesmo um tiozão redneck que já não consegue mais praticar aquele rebolation, mas ainda chuta bundas em cima de um palco como nenhum frontman surgido na era pós-Cobain, aquele viadinho que estragou tudo.
Dos três guitarristas da nova formação, destaque para o tal DJ Ashba, que sozinho colocou no bolso todos aqueles freaks do Rock in Rio 2001. Aliás, foi um show para apagar de vez aquela imagem ruim do Rock in Rio. Sem escola de samba. Sem cover de Tim Maia. Se Slash tocava o tema do Poderoso Chefão, o novo Guns toca o tema de 007, da Pantera Cor-de-Rosa, Pink Floyd, Iron Maiden... Ok, alguém errou o primeiro solo de "November Rain" (crime hediondo) e mudaram a introdução de "You Could Be Mine" (justo a melhor intro da história do rock masculino), mas até isso a gente perdoa.
Depois do início bombástico, Axl não deu mais chilique. Pelo contrário, foi gentil, cantou a maioria das músicas sorrindo, chamou a modelo Ellen Jabour pra traduzir seu tradicional pedido para que "todos deem um passo pra trás", pra aliviar a pressão da turma esmagada na frente. Axl com uma loira gostosa no palco, que momento. E no meio de "Knockin' on Heaven's Door", o grande discurso da noite: Axl diz que precisa desabafar porque está puto. Conta que alguém marcou o show para VIPs da última quinta sem sua autorização. Explica que se tivesse ido lá, tocar para "models and shit", não teria voz pra cantar pra gente no sábado. E ele queria muito cantar pra gente no sábado. Aí você fica sabendo que a balada VIP tinha ingressos a 3 mil reais para gente como Marcos Mion e Júnior Lima e que houve tumulto lá entre as celebridades irritadas, e você não tem como não achar Axl Rose o sujeito mais legal do mundo naquele momento. Fuck you models and shit.
Teve mulher gostosa, teve fogos de artifício, explosões, coreografias, rosas e peças íntimas atiradas no palco, chilique de rockstar, enfim, teve tudo que se espera de um show do Guns. E depois de quase 3 horas, tudo acabou com a doçura de "Patience" e o cataclisma de "Paradise City", com chuva de papel picado e tudo mais. E foda-se a parcimônia, a crítica imparcial e o descaso das viúvas do Kurt Cobain. Quem reclama de um show desses não manja nada de rock.
* Se você gostou deste texto: em breve tem show do Aerosmith.
* Se você não gostou deste texto: vá pro quarto chorar porque o Gossip não vem mais.
* Leia aqui a versão oficial do Marcos Mion para o show VIP. É demonstração de inveja nossa falar "chupa" pra essa gente? Claro que é. Mas e daí? É divertido de qualquer forma. Chupa!
by Registro Dissonante



















































